ESSA FEIJOADA TEM AXÉ, ESSA FEIJOADA TEM MIRONGA:
uma foto-etnografia de uma festa de preto velho




Larissa Fontes [!]



Este ensaio mostra a festa da preta velha Vovó Maria Conga desde sua preparação. Vovó Maria Conga é uma das principais entidades do Grupo União Espírita Santa Bárbara (GUESB), terreiro de Umbanda auto-denominado “traçado com Nagô”. Ou seja, o terreiro mistura os fundamentos da Umbanda com elementos do Candomblé.

O terreiro é localizado em Maceió – Alagoas, no bairro do Vilage Campestre II e liderado pela iyalorixá Mãe Neide Oyá D’Oxum. A Feijoada da Vó acontece tradicionalmente no dia 13 de maio, data simbólica em que se comemora a sanção da Lei Áurea, que, em 1888, extinguiu a escravidão no Brasil. Mesmo assim, Mãe Neide ressalva: “nosso dia 13 nada tem de comemoração, pois libertação nunca houve”. Segundo ela, sua festa é uma ritual de oração pelas almas e por seus pretos velhos.

Os fiéis chegam ao terreiro na noite anterior, dia 12. Na primeira noite acontece o rosário pelas almas dos negros: as mais velhas integrantes do terreiro se reúnem na Casa da Vó, uma pequena casinha de taipa construída no interior do terreiro. Lá permanecem rezando juntas. Os demais membros ficam do lado de fora, homens posicionados de um lado, mulheres do outro, segurando o ponto: cantam orações repetidas durante todo o tempo em que as senhoras rezam lá dentro.

Acabado o rosário, os fiéis se reúnem na cozinha para a preparação da feijoada. Ao som de atabaques, cantam e cozinham durante toda a madrugada. O fogo à lenha é alimentado a cada vez que ameaça apagar. E assim, aproximadamente quatorze panelas de feijoada foram preparadas. Fomos dormir às 9h da manhã do outro dia, somente quando todas as panelas já haviam cozinhado. Dormimos pouco, às 11h já estávamos de pé novamente. Filhos que não participaram da feitura da feijoada já chegavam e trabalhavam em diversas tarefas, empenhados na arrumação do terreiro para a festa.

De noite, o momento mais esperado da festa: a chegada de Vovó Maria Conga, através de Mãe Neide. A entidade, curvada e fumando seu cachimbo, abençoou todo o salão e logo se dirigiu a sua cozinha, onde toda a feijoada foi preparada. Também visitou sua Casa, a já referida pequena casa de taipa, onde são colocados os fundamentos dos pretos velhos e também onde a iyalorixá realiza seus atendimentos. Um pequeno banco foi colocado em frente a sua Casa, posicionado em frente a uma grande esteira, onde foram colocadas as panelas que iriam ser servidas. Os filhos e visitantes foram chamados para sentar à sua volta, na parte de trás do terreiro. A própria preta velha, auxiliada por ekedes, serviu cada um dos presentes em pequenos potes de barro. Nenhum talher é servido e a feijoada é comida com as mãos, lembrando a vida dos antigos escravos. Afinal, como convida o canto:

 

"Preto velho come no chão porque não tem cadeira pra sentar
Venha comer da feijoada

A feijoada de Maria Conga, Essa feijoada tem axé
Essa feijoada tem mironga..."
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